Aquele dia de uma mãe

Hoje a rotina teria que se espremer um pouco mais.

Entre a escola e o consultório, eu ainda precisava fazer caber um exame ortóptico da Helena.

O despertador tocou — milagrosamente — antes do senhor Bagunça.

Acordei em um sobressalto.

Por alguns segundos, fiquei tentando entender aquele silêncio estranho. A casa inteira ainda dormia.

Normalmente organizo nossa rotina de forma que eles possam dormir até o sono acabar. Gosto da ideia de que acordem porque o corpo decidiu que já descansou o suficiente, e não porque um relógio determinou que a vida precisava começar.

Mas, naquele dia, isso não seria possível.

Havia escola. Havia exame. Havia consultório. Havia horários que não conversavam entre si e que, ainda assim, precisariam caber dentro das mesmas poucas horas.

E havia eu, no meio deles, fazendo aquilo que tantas mães fazem quase sem perceber: calculando mentalmente o tempo.

Quanto demoraria para acordá-los. Quanto tempo para escovar os dentes. Para escolher uma roupa. Para alguém decidir que justamente aquela meia estava incomodando. Para preparar o café. Para lembrar a garrafinha. Para procurar alguma coisa que, inevitavelmente, só desaparece nos dias em que estamos com pressa.

Olhei para o relógio.

Ainda dava.

Essa talvez seja uma das frases mais perigosas da maternidade:

“Ainda dá tempo.”

Porque, quando uma mãe pensa que ainda dá tempo, provavelmente já existe uma sequência inteira de pequenas operações acontecendo dentro da cabeça dela.

Se sairmos até as sete, chegamos ao exame, no máximo, às sete e meia. O horário é às sete e quarenta e cinco, então trabalho com quinze minutos de margem para contratempos.

Se não houver trânsito, são apenas vinte minutos.

Mais o tempo de estacionar.

Fazer o cadastro.

Esperar — tomara que pouco.

Realizar o exame.

Depois, deixá-la na escola ainda a tempo da segunda aula.

E, por fim, chegar ao consultório sem ser atropelada logo cedo pela tentativa de transformar uma manhã inteira numa corrida contra o relógio.

Porque essa é outra coisa que a maternidade ensina cedo:

nunca vencemos o tempo.

No começo, eu ainda me iludia tentando negociar com ele.

Como se quinze minutos de margem fossem capazes de convencer o mundo a colaborar.

Perfeito.

No papel.

A maternidade, porém, raramente lê nossos planejamentos.

E a vida, definitivamente, não costuma se impressionar com a nossa pressa.

Levantei. Tirei o pijama e deixei que eles descansassem mais alguns minutos no meio das cobertas.

Imprimi as guias: a solicitação do exame, a autorização.

Conferi os documentos.

Chequei se havia pegado o celular.

Olhei novamente para o relógio.

Ainda dava.

A casa permanecia silenciosa e, por alguns instantes, parecia até possível acreditar que tudo aconteceria exatamente como eu havia calculado.

Mas eu já sabia.

Em poucos minutos, alguém chamaria:

— Mãe?!

E então o dia começaria de verdade.


Quando finalmente concluímos a primeira maratona daquela manhã, olhei para o horário registrado junto à senha de atendimento.

7h28.

Suspirei aliviada.

Agora era só esperar.

A recepção ainda parecia acordar. Vazia. Silenciosa.

Alguns minutos depois, um rapaz chegou e se acomodou ao nosso lado.

Logo depois apareceu a moça da cantina, e eu a acompanhei com os olhos, esperançosa.

Quem sabe ainda dava tempo de pegar um café.

Quinze minutos se passaram.

Uma senha apitou no painel.

O rapaz levantou-se e seguiu para o atendimento.

Mais quinze minutos e ele já saía, com um papel nas mãos.

Olhei novamente para o relógio.

O corpo do senhor Bagunça, a essa altura, já não conseguia mais permanecer parado.

Do meu colo para a cadeira. Da cadeira para o chão. Do chão para uma corrida em círculos pela sala ainda vazia.

Deixei que o corpo extravasasse um pouco.

Peguei um copo de água e, abaixando-me até a altura dele, expliquei:

— Amor, corredor de hospital não é lugar de correr. Agora tudo bem porque está vazio, mas daqui a pouco vão chegar mais pessoas. Você pode se machucar ou machucar alguém.

Ofereci a água.

Recusada imediatamente, é claro.

— Combinado! Assim que chegarem outras pessoas, eu paro de correr!

Respondeu já no meio do caminho, olhando para trás na minha direção enquanto continuava exatamente aquilo que acabara de prometer interromper.

Sorri.

Ainda estava vazio.

Ainda dava.

De novo aquela frase.

Ainda dava.

Talvez a maternidade seja também isso: uma sucessão de pequenos acordos firmados em movimento, entre um horário e outro, uma promessa e outra, enquanto tentamos manter alguma aparência de controle sobre um dia que já começou a escapar do planejamento.

Vinte minutos se passaram.

Ele continuava dando voltas pela sala, intercalando corridas com breves segundos de parada.

Eu já estava exausta só de acompanhá-lo com os olhos.

Mais duas pessoas chegaram.

Imediatamente o interrompi e o lembrei do nosso combinado.

— Está demorando muito, mamãe! Quero ir embora!

O choramingo começou poucos segundos depois de ele voltar a se sentar.

— Eu sei, meu amor. Lembra do que conversamos? A gente precisa ter paciência e esperar a nossa vez.

Se falar sobre paciência já não é fácil quando se tem três anos, tampouco fica simples aos 37, quando somos nós que precisamos nos espremer para fazer caber tudo o que precisa ser feito dentro do mesmo intervalo de tempo.

Então ouvi o apito do painel.

Suspirei aliviada.

Finalmente.

Entramos os três na sala.

— Bom dia — cumprimentei.

A profissional olhou para mim, depois para as duas crianças que entravam comigo e perguntou:

— São os dois pacientes?

— Não. Quem vai passar é apenas a Helena — respondi.

— Ainda não é a vez dela. O horário era às 7h20. Como vocês chegaram atrasados, vou atendê-la depois desses dois pacientes que chegaram agora.

Por alguns segundos, não entendi.

A segurança de todos aqueles cálculos que eu havia feito desde que o despertador tocara começou a desmoronar.

— Não… Estamos aqui desde as 7h28. O horário agendado era 7h40.

— Pois no sistema está 7h20.

Olhei para ela ainda tentando organizar as informações.

Saí da sala confusa.

Peguei o celular.

Abri a agenda.

7h40.

Era isso que eu havia anotado.

Por um segundo, veio aquele pequeno alívio de quem encontra uma prova de que não enlouqueceu.

Depois abri a conversa do agendamento.

E lá estava:

7h20.

Fiquei olhando para a tela.

Agenda: 7h40.
Mensagem: 7h20.
Sistema: 7h20.
Eu: 7h28.

Em algum momento entre receber a mensagem e registrar aquele compromisso na agenda, vinte minutos simplesmente desapareceram.

E eu só me dei conta disso às 8h20.

Passei a manhã inteira acreditando que havia chegado doze minutos adiantada.

Na verdade, chegara oito minutos atrasada.

Olhei para o relógio novamente.

8h20.

A segunda aula começava naquele exato momento.

Já não havia mais segunda aula.

Agora, mesmo que saíssemos dali imediatamente, Helena só conseguiria entrar na escola na terceira.

Sentei.

Era hora de recalcular tudo outra vez.

Esperar?

Desistir do exame?

Levá-la para a escola?

Remarcar?

Qual decisão traria menos prejuízo?

— Mamãe, eu quero ir embora! — reclamou Pietro.

— Eu não aguento mais esperar! — disse Helena.

Respirei fundo.

— Helena, a mamãe se confundiu. A gente chegou oito minutos atrasada. Eu achei que tínhamos chegado doze minutos adiantadas.

Dizer aquilo em voz alta não tornou a situação melhor.

Oito minutos.

Eu entendia que estávamos atrasadas.

Mas uma hora de espera por oito minutos de atraso parecia difícil de acomodar dentro de qualquer um daqueles cálculos.

Respirei fundo outra vez.

Porque eu também conheço o outro lado.

Conheço a bola de neve que começa com um paciente chegando cinco minutos atrasado, outro dez, uma consulta que exige um pouco mais de tempo do que o previsto, uma família que precisa fazer mais uma pergunta antes de sair.

Conheço o relógio avançando enquanto a sala de espera enche.

Conheço a tentativa de explicar para quem está aguardando que alguns atendimentos simplesmente não cabem nos minutos que a agenda reservou para eles.

Conheço o paciente do fim do dia, que chegou no horário e não tem culpa alguma dos pequenos atrasos que foram se acumulando desde a manhã.

Sei que não é simples.

Cada caso é um caso.

Talvez justamente por conhecer esse lado eu tenha tentado encontrar uma justificativa para aquela espera.

Uma intercorrência.

Um paciente que tivesse exigido mais tempo.

Algum atendimento acontecendo enquanto aguardávamos.

Mas, durante parte daquele período, a recepção continuou vazia.

Nenhum paciente entrou.

Nenhum saiu.

Nós permanecemos ali.

Esperando.

E foi nesse momento que a questão deixou de ser apenas o atraso.

Eu sabia que havia errado.

Oito minutos eram meus.

Eu podia assumir esses oito.

O que eu já não sabia era onde colocar todos os outros.

Porque uma coisa é lidar com as consequências do nosso próprio atraso.

Outra é perceber que, depois dele, o nosso tempo parece ter deixado de importar.

E talvez fosse justamente isso que começava a me incomodar.

Não a espera em si.

Mas a sensação de que aqueles minutos tinham valores completamente diferentes dependendo de qual lado da porta estávamos.

Algo frio tomou conta do meu corpo.

Não era exatamente raiva. Pelo menos não ainda.

Era uma sensação desconfortável, quase física, abrindo um espaço dentro de mim que precisei de alguns minutos para conseguir nomear.

Senti-me desrespeitada.

Injustiçada.

Incompreendida.

E talvez o que mais doesse fosse justamente ter tentado compreender.

Eu compreendia o atraso.

Compreendia a organização da agenda.

Compreendia que havia chegado oito minutos depois do horário.

Compreendia que pacientes que chegaram no horário também não deveriam ser prejudicados por mim.

Eu conhecia aquele lado da porta.

Mas, naquele momento, parecia que ninguém estava tentando enxergar o meu.

Eu não tinha simplesmente chegado oito minutos atrasada.

Havia acordado mais cedo.

Acordado duas crianças.

Organizado documentos.

Calculado trânsito.

Estacionamento.

Escola.

Consultório.

Segunda aula.

Café que não tomei.

Um menino de três anos que já estava havia quase uma hora tentando conter um corpo que queria correr.

Uma menina que perderia mais uma aula enquanto esperava.

E uma manhã inteira que eu havia espremido cuidadosamente para fazer tudo caber.

Nada disso apagava os meus oito minutos.

Mas os meus oito minutos também não apagavam todo o resto.

Talvez fosse isso.

Eu não queria que meu atraso deixasse de ter consequência.

Queria apenas que o meu tempo também tivesse valor.

Porque, para quem olha de fora, eram apenas minutos em uma sala de espera.

Para mim, cada um deles já estava sendo retirado de algum outro lugar.

Da escola.

Do trabalho.

Dos meus filhos.

De mim.

Mais vinte e cinco minutos se passaram.

Os dois pacientes saíram.

A senha tocou novamente.

— Agora, sim, é a vez de vocês.

Eu já estava cansada demais — e atrasada demais — para perguntar por que a sala havia permanecido tanto tempo sem atendimento ou por que as chamadas só haviam sido retomadas depois da chegada daqueles dois pacientes.

Naquele momento, eu já não queria entender.

Queria terminar.

Ajeitei Helena e Pietro nas cadeiras e entramos.

— Por que vocês vieram me ver? — perguntou.

— Foi solicitado um novo exame após as sessões de exercícios — respondi.

Ela olhou para Helena.

— E você ainda acha que está entortando o olho?

A pergunta ficou alguns segundos no ar.

Talvez fosse o cansaço.

Talvez fosse toda aquela manhã acumulada dentro de mim.

Respondi, mais seca do que gostaria:

— Eu não estou aqui pelo que acho. Estou aqui para realizar o exame porque ele foi solicitado pelo médico assistente da minha filha.

— E ele não receitou óculos?

— Não. Referiu que a acuidade visual dela é muito boa.

Olhei para Helena.

— Como pode observar, ela não está usando nenhum.

O exame começou.

Depois de mais de uma hora medindo o tempo em blocos de cinco, dez, quinze, vinte minutos, o procedimento levou cerca de dez.

Dez minutos.

Era curioso perceber como o relógio, que havia ocupado tanto espaço naquela manhã, naquele instante parecia fazer pirraça com o meu desespero.

Ao terminar, enquanto preenchia e assinava o resultado, ela comentou:

— Já que ele não quis passar óculos, vai precisar fazer mais sessões de exercícios.

Respirei.

Naquela altura, talvez aquela fosse a única coisa que eu ainda conseguia controlar: a forma como responderia.

— Agradeço pelo exame. Agora, com o resultado em mãos, retornarei ao médico assistente dela e seguirei as orientações que ele me der.

Peguei o papel.

Organizei as crianças.

Conferi o celular.

Olhei para o relógio mais uma vez.

E saí.

A manhã que eu havia planejado em minutos já não existia havia muito tempo.

A segunda aula tinha passado.

A terceira se aproximava.

O consultório me esperava.

E o senhor Bagunça, como se tivesse acabado de acordar, ainda esbanjava energia.

Eu, não.

Talvez fosse esse o ponto mais estranho de tudo.

Eu havia passado a manhã inteira tentando fazer o tempo caber.

Acordei mais cedo.

Calculei trajetos.

Reservei margem para imprevistos.

Organizei documentos.

Negociei com uma criança de três anos.

Recalculei escola, trabalho e trânsito.

Assumi os oito minutos que eram meus.

E, no fim, percebi que havia uma variável impossível de colocar em qualquer agenda:

o valor que outra pessoa atribui ao nosso tempo.

Saí dali sabendo que meus oito minutos de atraso existiram.

Eu não precisava apagá-los para reconhecer tudo o que havia acontecido depois.

Eu podia ter me confundido com o horário e, ainda assim, ter me sentido desrespeitada.

Uma coisa não anulava a outra.

Talvez amadurecer também seja aprender a sustentar duas verdades ao mesmo tempo.

Eu errei.

Cheguei oito minutos atrasada.

Mas aqueles oito minutos não tornavam insignificantes todos os outros que vieram depois.

E foi isso que me feriu.

Não apenas esperar.

Mas esperar enquanto a sala permanecia vazia, enquanto a segunda aula passava, enquanto o meu planejamento inteiro desmoronava, sem conseguir compreender por que oito minutos haviam se transformado em mais de uma hora.

No carro, antes de ligar o motor, olhei para os dois no banco de trás.

Ainda havia escola.

Ainda havia consultório.

Ainda havia uma parte inteira do dia esperando para acontecer.

Olhei para o relógio.

Dessa vez, não pensei:

Ainda dá tempo.

Apenas respirei.

E fui.