Depois de um dia cheio, quando o corpo só pede um banho quente e descanso, o entardecer ainda reserva seus próprios desafios.

Helena, minha maravilhosa menina-moça de 9 anos, cabelos soltos e embaraçados, olhos brilhantes, trava uma verdadeira batalha entre tudo aquilo que ainda gostaria de fazer e o inevitável que se aproxima, anunciando que o dia está terminando.

Basta ouvir a frase:

— Agora é hora do banho.

E milhares de ideias começam a borbulhar em sua mente com a intensidade de um furacão.

Enquanto preparo o banho do Senhor Bagunça, um lindo menininho que há um ano deixou de ser bebê, percebo o som que mais assusta uma mãe:

o silêncio.

Não há reclamação. Não há barulho de eletrônico.

Mas também não há o som do chuveiro.

Preparo a água, deixo os brinquedos ao alcance e coloco o mocinho no banho.

Atravesso o corredor como um vendaval e encontro Helena saindo do meu quarto, os olhos esbugalhados ao se deparar comigo.

— Credo, mãe! Que susto! Já estou indo!

Confiro se realmente não haverá novas batalhas entre ela e o chuveiro e volto para o Senhor Bagunça.

Mais tarde, depois da leitura, dou um beijo em cada um, orgulhosa de vê-los dormindo em suas próprias camas.

Retorno ao meu quarto.

Sobre a mesa, encontro alguns balões, um rolo de durex e uma folha de papel.

Em letras verde-fluorescentes, Helena havia escrito:

“Buti, Mimi e Bisa, como vocês estão? Deus existe?”

 

E o tempo para.

Bruce, nosso gentleman protetor em forma de pastor-alemão de 50 quilos, morreu há três anos.

Mimi, a hamster de Helena — de quem ela cuidava como uma pequena mãe justamente quando o irmão chegou em casa — também partiu.

E a Bisa, no auge de seus 93 anos, alcançou seu merecido descanso.

Olhei novamente para os três nomes.

Bruce.

Mimi.

Bisa.

Três amores completamente diferentes, separados pelo tempo, pelo tamanho e pela forma como fizeram parte da nossa vida.

Para uma criança, porém, talvez não existam categorias para o amor.

Não importa se ele veio coberto de pelos, se coube na palma da mão ou se carregava quase um século de histórias.

Quando amamos, amamos.

E, quando perdemos, a ausência ocupa um espaço que não obedece à lógica dos adultos.

Naquela noite, Helena não havia me perguntado apenas se Deus existe.

Perguntara, sem saber:

o que acontece com o amor quando alguém morre?

Passei a mão sobre o papel.

Em que momento as perguntas dos nossos filhos mudam de profundidade sem que sequer percebamos?

Quando deixam de ser sobre por que a lua nos segue pela janela do carro, de onde vêm os bebês ou por que precisamos dormir e passam a tocar lugares para os quais nem nós, adultos, temos respostas?

Por alguns segundos, tive vontade de acordá-la.

Queria perguntar o que a havia feito pensar naquilo justamente naquela noite. Se sentia saudade. Se tinha medo. Se alguma lembrança lhe apertara o peito de repente.

Mas permaneci ali, em silêncio, com aquele pequeno pedaço de papel nas mãos.

Talvez algumas perguntas precisem repousar antes de serem respondidas.

Foi então que compreendi que eu também não sabia responder à pergunta de Helena da maneira como tantas vezes desejamos responder aos nossos filhos: com segurança e a certeza de quem conhece todos os caminhos.

Eu poderia lhe contar sobre aquilo em que acredito. Sobre fé, céu, reencontros e sobre a esperança de que aqueles que amamos continuem, de alguma forma, existindo além do alcance dos nossos olhos.

Mas talvez sua pergunta fosse ainda mais simples — e muito maior:

Mãe, quem a gente ama continua existindo em algum lugar?

Meu coração tinha uma resposta muito antes de minha razão encontrar as palavras.

Virei a folha.

No verso, o Senhor Bagunça havia desenhado o Homem-Aranha: calça azul, blusa vermelha e preta, a aranha cuidadosamente posicionada no centro do peito e os pequenos punhos cerrados.

Sorri.

Peguei uma caneta e comecei:

— Amor, encontrei sua carta junto com os balões e o durex. Acho que você pensou em prendê-la a eles para que voasse até o céu e, quem sabe, trouxesse de volta uma resposta.

Imaginei você escolhendo os balões, procurando o durex, tentando descobrir a melhor maneira de prender o papel e confiando que, depois de soltos, eles saberiam encontrar o caminho.

Mas acho que preciso lhe contar uma coisa.

Talvez não seja necessário mandar uma carta tão longe para conversar com quem amamos.

Vou tentar explicar da maneira como a Bisa me ensinou quando eu tinha exatamente a sua idade.

Parei por alguns instantes.

Tentei me lembrar de como ela falava sobre Deus, sobre fé e sobre aqueles que já não estavam ao alcance das nossas mãos.

Então percebi que, para responder a Helena, talvez eu não precisasse encontrar palavras novas.

Precisava apenas permitir que algumas palavras antigas atravessassem mais uma geração.

No espaço que restava naquele papel, deixei que a Bisa respondesse à bisneta:

“Minha amada bisnetinha,

Eu, Bruce e Mimi estamos muito bem.

Aqui reencontramos aqueles que amamos e continuamos torcendo por você, como fazíamos quando ainda podíamos receber seus abraços.

Quando a saudade apertar, procure-nos nas lembranças.

Lembre-se de uma história, de uma risada, de um abraço, de alguma coisa que vivemos juntas.

É assim que aqueles que amamos continuam morando em nós.

E você perguntou se Deus existe.

Foi assim que aprendi a enxergá-Lo: no amor, na bondade, na gentileza, no cuidado e no amparo que recebemos quando tropeçamos.

Nunca fui de morar dentro de uma igreja, mas sempre carreguei comigo a fé.

A vida me deu sua vovó Jejê. Depois, sua mãe. E, por meio dela, chegaram você e seu irmão. A fé me ensinou a reconhecer Deus em cada um desses encontros.

De geração em geração, fui aprendendo que talvez uma das formas mais bonitas de perceber Deus seja observar o amor se multiplicando dentro de uma família.

Continue fazendo perguntas, minha querida.

Não tenha medo nem mesmo daquelas que parecem não ter resposta.

A fé não existe porque conhecemos todos os caminhos. Às vezes, ela começa justamente quando aprendemos a caminhar ao lado das nossas dúvidas sem deixar de acreditar no amor e na esperança.

E, quando sentir saudade, feche os olhos.

Você vai perceber que continuamos ali.

Porque quem amamos nunca parte por inteiro.

Apenas aprende a permanecer de uma maneira diferente.

Com todo o meu amor,

Bisa.”

Quando terminei de escrever, fiquei novamente em silêncio.

À minha frente estavam os balões, o durex, a pergunta de uma menina de 9 anos e, no verso daquela mesma folha, um Homem-Aranha de punhos cerrados desenhado pelas mãos pequenas de seu irmão.

De um lado, um super-herói preparado para enfrentar o mundo.

Do outro, uma criança tentando compreender aquilo que nenhum superpoder pode vencer: o tempo, a ausência, a morte.

E, entre os dois, eu.

Mãe.

Tentando fazer aquilo que fazemos desde o instante em que nossos filhos chegam ao mundo: segurá-los pela mão diante daquilo que ainda não conseguem compreender, até que encontrem coragem para procurar suas próprias respostas — mesmo quando nós também não as temos.

Olhei novamente para os balões.

Helena talvez acreditasse que eles precisariam subir muito alto para que sua pergunta chegasse ao céu.

Naquela noite, compreendi que não.

A resposta já havia percorrido uma distância muito maior.

Tinha atravessado o tempo.

Passara de uma bisavó para uma mãe, de uma mãe para uma filha, carregada não por balões, mas por histórias, lembranças, fé e amor.

Voltei a olhar para o corredor silencioso onde meus filhos dormiam.

Poucas horas antes, eu o atravessara como um vendaval, preocupada com banhos, brinquedos, horários e camas.

Agora caminhei devagar.

Porque algumas perguntas realmente fazem o tempo parar.

E talvez seja justamente quando ele para que percebemos o quanto nossos filhos cresceram enquanto estávamos ocupados tentando dar conta dos dias.